sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Verde que te quero ver

O taxista pisou fundo no pedal do meio, o carro chiou, gemeu, tremeu e enfim parou, e o carro de trás, junto com o motorista do carro de trás, também freou, gritou, xingou e buzinou, e todos os outros carros, e todos os motoristas dos outros carros, e das motos, e dos ônibus, e dos caminhões também xingaram, buzinaram e frearam, mas todos então enxergaram o motivo de o taxista ter ousado paralisar o trânsito da maior cidade do país: uma árvore nascera em plena Avenida Paulista.

Sem mais nem menos e sem pedir autorização a qualquer órgão público, aquele monstro verde surgira ali inteiro, em um segundo, brotando do asfalto estéril. E todos desceram de seus veículos, e todos ligaram seus celulares, e todos consultaram seus laptops, e todos finalmente usaram seus olhos sem visão para admirar o espetáculo e para tentar explicar o que era aquilo. A questão não era saber que tipo de árvore seria aquela, se um abacateiro, um pau-brasil ou uma mexeriqueira, e também não era saber como ela poderia ter surgido assim, tão de repente; a questão era simplesmente saber o que seria aquela coisa: um novo edifício comercial, um shopping center, um carro alegórico de alguma escola de samba temporã?

Era algo tão diferente na vida daquelas pessoas que muitas delas tiraram fotos, as crianças descobriram que dava para subir pelos galhos, e um casal de namorados chegou a rabiscar no tronco seus nomes dentro de um coração. Apesar de ter causado grande estranhamento, a novidade serviu para quebrar a rotina dos trabalhadores que passavam por ali, e eles aproveitaram para diminuir um pouco o ritmo frenético do trabalho e descansar à sombra acolhedora.

Vieram repórteres, políticos, bêbados, políticos bêbados, donas de casa, donas de casa sem casa, universitários e toda uma turba que sempre acha que sabe de tudo, mas ninguém pôde dizer o que era aquele troço verde e esquisito, que contrastava com o deslumbrante tom cinzento das imediações. Veio também um bem-te-vi, que resolveu ficar por ali para relaxar suas asas estressadas de pássaro metropolitano e observar o olhar apatetado daquela gente.

E aquela gente, após pensar e repensar com a mãozinha no queixo, calcular um tal de custo-benefício e concluir que aquele objeto verde não identificado era inútil e perigoso, emitiu uma ordem de despejo ao bem-te-vi e derrubou a árvore. E não adiantou um garotinho dizer, com sua voz indecente, que no meio das folhas havia umas bolotas coloridas parecidas com aquelas ilustrações encontradas na embalagem de suco de manga. A árvore foi abaixo, levando consigo suas incômodas cores e o coração cicatrizado dos namorados.

Depois de algumas horas caóticas de trânsito em transe, depois de o obstáculo ser removido e de o asfalto ser recuperado, os carros, as motos, os ônibus, os caminhões e os humanos puderam trafegar desimpedidos pela avenida e viver sua vida de maneira saudável e livre. E o bem-te-vi nunca mais foi visto.

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