Interior Amarelo e Azul ‒ Matisse
Domingo de chuva, fomos eu e a Deia de busão e guarda-chuva à Pinacoteca e à Estação Pinacoteca.
Na Estação, quase usei os cobertores da Leda Catunda para me cobrir de vergonha de suas colagens e de seus retalhos costurados. Dizem que a arte dela é difícil. Difícil de encarar.
Depois, cara de dedo ao passar, impassível, pelas gravuras do português José Pedro Croft. Já as de Fayga Ostrower, densas e sóbrias, começaram a salvar meu dia.
A seguir, a coleção Nemirovski me fez abençoar o modernismo, movimento que, apesar de ser culpado pela futura vinda de muito lixo, também produziu artistas do quilate de Aldo Bonadei e Lasar Segall, entre outos lá expostos.
No térreo, uma visita ao horror da ditadura: o Memorial da Resistência. As celas escuras do Deops foram abertas ao público. Vídeos com depoimentos de presos e a reprodução de publicações da época são um aviso para que jamais deixemos aquilo acontecer novamente.
Uma caminhada da Estação até a Pinacoteca valeu cada gota de chuva: como o ingresso de uma valia para a outra, não precisamos pegar a enorme fila da bilheteria para ver o Matisse.
Do fauve francês, nem tantas obras de destaque. O que não quer dizer que não há obras-primas, que merecem ser vistas e revistas: Natureza Morta com Magnólias, a série Jazz e minha pintura preferida na exposição da Pinacoteca, Interior Amarelo e Azul, reproduzida acima. Perfeito equilíbrio entre as duas cores, acentuado pelos grossos contornos e pela disposição dos temas na tela.
Sobre o playground colorido e feliz que montaram ao lado de Matisse, com artistas "relacionados" ao mestre, melhor nem comentar.
Voltamos a pé da Luz à Consolação. Céu cinza, prédios pixados e lixo abandonado pela prefeitura em cada canto do centro. Uma pinceladinha do Matisse daria outras cores a São Paulo.

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