Quando a senhora de capuz entrou na sala para levá-lo deste mundo, Jorge Hitlodeu acabara de digitar o ponto final da obra máxima em sua carreira de escritor: sua autobiografia. Eram duas mil páginas carregadas de passagens edificantes sobre uma vida ao mesmo tempo visionária e íntegra. A humanidade merecia um livro daquela grandiosidade!
A infância pobre, a fuga de casa na adolescência, as lutas por um mundo mais justo, a amizade de grandes autores, a contundente carreira literária, estava tudo ali. Best-seller garantido. Era uma pena que Jorge não fosse desfrutar do sucesso debaixo de sete palmos de terra, mas pelo menos aquela obra colocaria eternamente seu nome no cânone universal.
O clique que faltava para enviar o texto a um editor foi impedido pela sempre justa dona Morte:
− Tsc, tsc. Não acha que tem lorotas demais aí?
O escritor vacilou. Realmente, em alguns pontos ele havia floreado um pouquinho, em outros a verdade fora sumariamente pervertida. Ora, será que no Brasil certa dose de inverdade não seria tolerada?
− Olha, Jorge, vou te dar uma colher de chá. Lembra que mentira é pecado, e eu ia te levar diretinho pro céu. Agora, mermão, se tu não consertar essa baboseira aí, não sei, não, se o hómi vai te aceitar lá em cima. Pensa bem, te dou uma semana.
Sozinho, ele decidiu repensar sua vida. É, talvez fosse melhor mudar algumas coisinhas. A primeira ação foi riscar todas as passagens em que as palavras “dinheiro” e “sucesso” apareciam. Isso até enriqueceria sua biografia, afinal que grandes escritores tiveram muito dinheiro ou reconhecimento em vida? Analisando o conteúdo, achou melhor ater-se aos acontecimentos, retirando páginas e mais páginas cheias de filosofia vazia. E as citações também foram cortadas. Muito pedantes.
Hum, e o que estavam fazendo os nomes de todas aquelas atrizes e modelos, entre as quatro paredes de uma alcova de papel? Jorge jamais se envolvera com qualquer mulher. Aliás, desde criança sonhava em ser escritor, e esse objetivo o isolou em sua casa, a tentar escrever a obra perfeita − a obra de uma vida inteira, que ele achava que se consumaria naquela autobiografia.
Por dias foi cortando e cortando trechos, tudo que era falso, tudo que era fruto de sua imaginação. Quando a Morte voltou, ele havia terminado. Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. Estava finalizada a obra que resumia tudo de importante que lhe acontecera.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário