terça-feira, 21 de julho de 2009

Gol de placa

Ouvi até o final os gritos de meu chefe e saí do escritório. Pela última vez. Nada como um seco grito de “Rua” para encerrar dez anos de dedicação babosa a uma empresa fabricante de placas de trânsito. Se fosse outro dia, eu aceitaria numa boa minha demissão, afinal já não aguentava mais observar um bando de incompetentes que insistiam em escrever “Saída à 2 km” ou “Itú” e espalhar essas barbaridades pelas estradas. Tudo bem que meu serviço era na área financeira, era cobrar e cobrar funcionários públicos que sempre tentavam me comprar e me comprar. Mas eu não suportava aquela baixaria com a gramática, sentia-me até envergonhado por, mesmo que indiretamente, contribuir para o desrespeito contra nossa língua.

Naquela tarde, no entanto, após uma tonelada de insultos ter sido despejada sobre meu orgulho, eu estava indignado e alimentava certo desejo de vingança. Desci tartarugando as escadas e, a cada degrau, eu me lembrava de uma forma mais sangrenta de tortura, buscando em minha cinemateca mental todas as cenas violentas que vira na TV, nas edificantes noites de sábado.

Ao chegar à porta da frente, nova pitada de vinagre foi adicionada a meu tonel de revolta: começava a chover. Na pressa, o guarda-chuva ficara lá em cima, sobre minha ex-mesa, ao lado de meu ex-computador e de minha ex-caixinha de clipes usados e enferrujados, como para lembrar ao coitado que ocupasse aquele espaço nos próximos dias que ele também poderia ser escorraçado a qualquer hora, ser excluído do tal mercado de trabalho e ter de fugir para a rua no meio da chuva, como um vira-lata manco, a revirar nas lixeiras das agências um novo subemprego que lhe desse a chance de roer um osso que não fosse o dele mesmo.

Bem, eu não ficaria ali parado, nem subiria para pegar o guarda-chuva, pois nos dois casos corria sério risco de ver meu chefe pela frente, e eu temia o resultado desse encontro. Saí e fui andando pela calçada, sentindo, no gelado da água, florescerem dentro de mim as mais negras impressões. Sempre fui pacato, um ser que não faria mal a uma moça. Mas, naquele momento, parecia que o lado escuro de minha alma havia eclipsado todo colorido que um dia pudesse ter me iluminado.

Éramos milhares de cidadãos saindo do serviço no final da tarde, enfrentando as ruas encharcadas apenas para chegar em casa e ver na TV um repórter gordo e bobo mastigar as mesmas ladainhas sobre o congestionamento. Ao menos se ele ousasse um pouco, filmasse algo mais interessante, como por exemplo o bambolear daquela perua que atravessava a rua, sacolejando seus enormes peitos de chiclete sob uma blusa transparente. Ou aquele respeitável executivo com cabelo cinza e cara de iguana, que se protegia da chuva debaixo de uma mala de couro, onde deveria haver dólares, notas fiscais, relatórios, catálogos ou uma coleção de lingeries vermelhas e acessórios sadomasoquistas. Havia tanta matéria singular nas ruas, então por que nossos jornalistas eram tão óbvios e cegos?

Com esses pensamentos fui andando para casa, que ficava a uma distância suficiente para permitir um bom exercício de caminhada ao meu corpo de cetáceo bípede. Perturbado por minhas ideias, eu ia notando ou imaginando os piores defeitos dos pedestres, acompanhando cada um deles em sua luta contra o mau tempo.

O único que havia se resignado com a vileza da chuva era eu, encarando-a agora como aliada, e não como inimiga. Todavia, na outra calçada mais alguém parecia não se importar com suas roupas grudentas e com o frio: um garoto, lá pelos 8 anos, que ia pisando em todas as poças de água, o guarda-chuva preguiçosamente fechado debaixo do braço. Havia algo na cena que não pode ser chamado de nostálgico nem de pueril. Eu diria que havia magia em torno do garoto. Ele estava apenas sendo uma criança de 8 anos pisando nas poças de água, e aquilo simplesmente enfeitiçava um olhar como o meu, que em um minuto deixara de ser duro e vingativo e passara a observar o mundo de modo mais sensível e conciliador. Era confortador observá-lo chapinhando na água impunemente, a despeito de todos os chefes engravatados e das peruas plastificadas.

Lá fomos nós, eu e a chuva, acompanhar o menino. Por vezes ele marchava, pé ante pé, sobre o meio-fio, equilibrando-se na linha branca que separa, nas cidades grandes, os seres humanos estressados, apressados e motorizados dos seres humanos estressados, apressados e robotizados. E o pequeno equilibrista não pertencia a nenhuma das categorias, pelo menos não por enquanto, e pouco ligava para os motoristas que passavam lambendo a sarjeta e buzinando contra sua dança despreocupada. O guarda-chuva, um modelo pouco sóbrio feito de tecido amarelo, agora era um útil contrapeso e um perfeito par para aquele minguado Gene Kelly de boné verde e bermuda roxa.

Esqueci toda baixeza que meu ex-patrão cuspira em minha honra maculada e que os pneus cuspiam em minha calça. Eu nem sentia frio, tampouco me dava conta de minha deprimente figura, com meus raros cabelos sem cortar tecendo uma malha disforme colada sobre minha calvície. Eu estava tão absorvido naquele espetáculo que acabei atravessando a rua e seguindo o garoto, e até me desviei de minha rota habitual quando ele virou uma rua à esquerda, que nos levaria para o lado oposto ao da minha casa.

A chuva estava mais fraca. A brincadeira nas poças fora substituída por uma lata de refrigerante abandonada, que agora servia de bola de futebol. E o garoto a chutava longe, depois fingia driblar um marcador imaginário, e logo começou a narrar as jogadas, imitando os jargões de um apresentador da televisão. Naquelas poucas pedaladas idealizadas à minha frente, havia mais jeito e graça do que nos noventa minutos do enfadonho futebol mercadológico no qual se transformaram todos os nossos campeonatos. E ele gritava, comemorava seus gols, às vezes até dizendo uns palavrões bem cabeludos, daqueles que só os meninos autênticos conhecem.

Eu ia bem atrás dele, e é claro que ele percebeu minha perseguição. Em vez de fugir, como se alertado por uma distante voz de uma mãe neurótica, voltou-se para mim, jogou a bola metálica e disforme entre minhas pernas e chutou-a para longe, com um grito: É gol de placa! Depois de agradecer a uma imaginária torcida que o aplaudia, passou a caminhar ao meu lado, já esquecido da lata.

O senhor é palmeirense? Não, eu não era palmeirense. Ele nem quis saber meu time. Acho que para ele, se eu não era palmeirense, não devia entender muito de futebol. E disse que ele, sim, torcia para o Palmeiras. E adorava o Edmundo. O senhor vai ver, hoje o Edmundo vai detonar aqueles bostas. Não perguntei quem eram os bostas. Meu pai vai me levar pro Parque à noite. Ele não torce pra ninguém. Gosta só de corrida. Ele sempre vai comigo pro Parque, ganhei até a camisa do Edmundo. O seu pai leva o senhor pro campo? Respondi que meu pai já tinha morrido. Puts! Ele era palmeirense? Santista. Ah! Velho é tudo santista. Quem é inteligente torce pro verdão. Sabia que tirei A de matemática? O Tiago tirou D.

Depois ficou quieto, entediou-se com minha muda companhia e saiu correndo, tentando derrubar um marimbondo com o guarda-chuva.

Ainda o segui mais um pouco, mas logo o perdi de vista e comecei a sentir o frio de minhas roupas molhadas. Para me aquecer, entrei numa padaria e pedi um café. Café expresso, amargo. Eu já estava um pouco melancólico novamente. Queria também ter um guarda-chuva amarelo, queria também admirar o Edmundo ou qualquer pessoa. Não admirava ninguém, nem a mim mesmo. Talvez admirasse apenas o garoto, sua energia, sua vitalidade, sua descontração. Eu sabia que em breve ele poderia ser mais um como eu, ou como o executivo da mala de couro, afinal vamos todos nos embrutecendo com o tempo e nos desviando das poças de água, como se elas pudessem macular ainda mais nossa alma mercenária. Mas, ainda assim, havia uma espécie saudável de provocação e ousadia naquele corpinho mirrado que desafiava o futuro e ameaçava pintar o mundo com outras cores.

A voz de uma moça que acabara de entrar cortou meu pensamento: “Um menino de guarda-chuva amarelo”. Ela conversava com o rapaz que fazia o cafezinho. “Morreu?” “Na hora! O ônibus passou por cima. Espalhou os miolos. Tá assim de gente olhando.” Meu café ficou um pouco mais amargo.

***

No dia seguinte acordei e liguei a TV para ver o jornal da manhã. Não queria procurar emprego, não queria sair de casa. A chuva me trouxera uma gripe fortíssima, ia ficar na cama. Na tela, as más notícias de sempre: um ministro flagrado recebendo alguns milhões de um empresário; mais um resultado vergonhoso na avaliação das escolas brasileiras; um garotinho de 8 anos atropelado no centro da cidade. O semblante do apresentador, carregado e sombrio pela tragédia, se desanuviou a seguir, como num passe de mágica, ao comentar, eufórico, o golaço marcado pelo Edmundo na noite anterior: “Um gol de placa”.

2 comentários:

  1. Sempre visito blogs e raramente deixo algum comentário. Poucas coisas me impressionam. MAs se tem algo que gosto é quando a pessoa consegue relatar um experiência mágica, rara e que só os "tolos" mas "felizardos" como nós conseguem captar. Parabéns pelo texto. Pela prosa e pelo desenrolar das palavras. Me prendeu e ainda me fez "visualizar" a cena - só que "usei" uma rua próxima daqui do trabalho, no Rio.
    O desafio do menor em pintar outras cores é algo cada vez mais raro.
    UM abraço.
    Daniel.

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  2. Obrigado pelas palavras, Daniel.
    É bom encontrar alguém que também não se deixou embrutecer e não foi cegado pelo indiferente cinza dos nossos dias.
    Um abraço pra você!

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