A morte tem sido tema constante da literatura. Desde os autores clássicos até o neófito blogueiro, todos que se aventuram a escrever uma linha de texto acabam um dia se voltando a essa questão. O fim da vida, mais do que ela própria, é um fardo a pesar sobre cada ser humano, quando ele descobre ser menos longevo que um quelônio.
A angústia maior, para muitos, é não saber quando será esse dia. Ah, se pudéssemos prever a data de nossa morte, dizem eles, tudo seria tão menos doloroso! Será? Quanto de sofrimento seria poupado se tivéssemos, carimbado no traseiro, nosso prazo de validade? Acredito que muito pouco. Acho até que o sofrimento seria redobrado, e passaríamos a vida olhando para um espelho, não procurando rugas ou cabelos brancos, mas observando esse carimbo fatal e questionando o que poderíamos fazer para prolongar esse tempo ou para aproveitá-lo melhor.
Os condenados à morte devem conhecer muito bem essa angústia. Eles foram agraciados com o conhecimento maior; eles têm, tatuada no coração, na mente, no espírito, a data exata de seu extermínio. E tenho certeza de não estar falando besteira ao afirmar que eles não são mais felizes do que nós, mortais ignorantes.
Na literatura há muitos casos de autores que viveram eles próprios essa situação, ou a presenciaram, ou a imaginaram. E qualquer leitor que tenha entrado em contato com a obra deles deve saber que essa experiência não tem nada de confortador.
No primeiro time, daqueles autores que tiveram o privilégio de encarar a morte pré-datada, a maioria não sobreviveu para contar como foi. Há, no entanto, o caso de Dostoiévski. Condenado à morte por conspiração, ele foi levado diante do pelotão de fuzilamento e, no instante derradeiro anterior ao tiro, ficou sabendo que era tudo encenação, um susto que o czar lhe aplicou antes de mandá-lo para a Sibéria.
